Era 1992, talvez agosto, eu viajava de Belém para Curuçá, o sol da tarde incomodava, e até a brisa que teimava em entrar pela janela do bonde era quente e desconfortável, eu vivia naquele momento uma experiência e tanto. Adolescia em mim a frivolidade da militância política, partidária e cidadã, enfrentava os caciques políticos que tentavam me afastar da direção da escola em Terra Alta, e olha que fui escolhido em uma eleição realizada pela comunidade, para assumir tal posto. Mas, um "assessor/cacique" do governo na época propalava que eu era ocupante de um cargo que seria de "confiança" do governo (o que não me animava nem um pouco), e não da comunidade. Tive que me afastar daquela comunidade por quase um mês para evitar a pressão das "autoridades". O Conselho escolar que fundamos assumiu a coordenação da escola, fechou a mesma na minha ausência., impedindo a posse do diretor que ia me substituir. Contingentes de policiais eram deslocados para a localidade e o povo se reunia na frente da escola e impedia a entrada do diretor que ia me substituir, foi uma experincia indescritível, e me legou o ônus da eterna gratidão, por aquela gente toda, famílias que me acolheram, a galera do futebol, os militantes da igreja, tanta gente. Na séde do município de Curuçá se processava a mesma coisa, da mesma maneira, na escola de ensino médio e a comunidade escolar resistia. Um dia "eles" deram um drible em todo mundo, cortaram os cadeados e empossaram os novos diretores e a resistência acabou. Talvez tenha sido a primeira vez em que a quebra de cadeados e a abertura de grades não tenha significado liberdade, e sim autoritarismo. Fui aconselhado a vir para Belém, cedi ao conselho de uma das diretoras da Seduc na época. Larguei Terra Alta na mansidão de uma manhã, entardecer, não lembro, e ficaram, o rio de águas negras e frias, o futebol dos finais de tarde, as reuniões na igreja e nas comunidades do entorno, o carinho das pessoas que horizontalizavam o quadro das minhas relações naquele lugar, as idas para Curuçá nos finais de semana, para onde eu volto sempre e onde encontrava e reencontro todos os meus simbolos, meus sígnos, minha vida construída, minha saudade que goteja em minha lembrança, numa chuva doce e aconchegante, que me renova e expressa em plenitude a minha história, deixando minha alma submergir num mar de paz e esperança no novo que se avizinha e realimenta meus sonhos mais profundos. Ao sair de Terra Alta, muitos foram os olhares e as manifestações de censura, por não aproveitar o capital político que tinha adquirido. Os erros e frustações que se sucederam posteriormente à minha partida, só reforçaram a certeza de que fiz a melhor das escolhas. princialmente porque enfrentando aqueles desafios todos me pus a escrever aleatoriamente, soprando pelas letras, construindo em versos um desabafo. Vivia um momento de escolhas, de decisões extremamente doloridas, pessoais, afetivas, e comecei a rascunhar uma letra, no país inteiro o grande movimento de impeachemant do ex presidente Collor se agigantava, era o momento dos cara-pintadas, de discursos, e de protestar, e eu no fundo das minhas inquietações gestava uma canção que marcaria para sempre a minha vida.
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